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Depois de enfrentar uma grave doença, este trabalho nasceu como uma resposta e como celebração da vida. Afortunado o artista (dentro de cada ser humano) que pode transmutar dor em poesia. A partir de uma abordagem lúdica, o espetáculo faz uma crítica bem humorada aos procedimentos empregados na educação de um cidadão. Com imagens criadas com os recursos da Mímica Total e usando de jogos dramatúrgicos com lapso de tempo, revelam-se metáforas divertidas de como o corpo vai sofrendo restrições ao longo da vida para se conformar a padrões estabelecidos que aprisionam, limitam e amortecem os impulsos e desejos de vida intensa. Assim, criam-se diversas situações para refletir como o real valor de uma vocação é estimulado ou, ao contrário, os talentos e a criatividade inerentes a cada ser são negligenciados, questionando as origens da força ou da fraqueza do indivíduo como agente ativo, criador de relações saudáveis e potentes. Tendo como inspiração o filme "Tempos Modernos" de Charles Chaplin, queremos representar como a nossa vida cotidiana se organiza pela necessidade de gerar mão-de-obra qualificada para mercados padronizados, criando serem bem-treinados e sem nenhum senso crítico, resultando apenas em autômatos procurando um "sucesso" que não faz parte de sua natureza, que não pode ser alcançado, ou, quando alcançado, revela-se uma falácia vazia. No ponto mais alto de tensão do espetáculo, a escolha pela vida potente ou pela morte-em-vida concentra-se no momento presente, no agora, no encontro em ritual com o público. O ser se apropria das suas intensidades vitais e ultrapassa os mecanismos viciados. Pela afirmação da vida, a transformação toma corpo. A alegria é a provocação final da encenação. Já não estamos mais representando, mas celebrando o encontro e fazendo o convite público para, apesar das dores e descaminhos, resistir sempre e sempre pela alegria.
O processo de criação é baseado na pesquisa de linguagem realizada pela Cia. Silvana Abreu, chamada "Dramaturgia do Desejo", que integra técnicas corporais, seleção e criação de textos e a Filosofia Contemporânea de Afirmação da Vida. A movimentação é baseada nas técnicas extracotidianas da Mímica Total e do Teatro Físico, nas quais o corpo é considerado mídia primária, podendo ser objetos, emoções e abstrações. Desenha-se e transforma-se o espaço através de movimentos e ilusões mímicas. A voz também é corpo e pode tomar forma, peso, ritmo, na chamada mímica vocal, que corporifica sons, línguas inventadas (gromelô) e defacetação de palavras. Com os estudos de filosofia, tratamos a técnica como parte integrante de uma atitude artística. Como forma de afirmar um posicionamento ético e estético, afirmamos também a dilatação das potências de ação do corpo, ampliando sua abrangência cênica até as vibrações mais sutis. Integram-se corpo-voz-pensamento-emoção-intuição na figura do artista em estado de rito. Assim, há sempre uma elaboração pessoal para que o gesto esteja impregnado de máximo comprometimento vital. A técnica não como um fim em si mesma, mas como um canal estruturado com firmeza para que as forças da vida possam atravessá-lo em fluxo concentrado, maximizando o contato entre todos os seres presentes na celebração teatral. A partir daí, a dramaturgia nasce em processo orgânico, colada à vida e à sua urgência de expressão. Selecionando textos de autores consagrados ou criando textos próprios, construindo coreografias e partituras de ação, a criação é totalmente integrada e autoral, e será sempre intensa, autêntica, alegre e vibrante.
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