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Apresentar um espetáculo com qualidade e sensibilidade, fiel à intensidade e força da obra de Clarice Lispector. Transportar a poética e questões essenciais abordadas no texto para a linguagem teatral, sem perder a sua essência vital. Focar o trabalho do ator essencialmente, em toda sua potência, sem adereços.
A obra de Clarice Lispector está impregnada de um movimento interno na tentativa de entender e expressar as estruturas básicas que movem o ser humano. Retirando todas as camadas superficiais das convenções sociais e culturais, de psicologismos, Clarice tenta atingir o que é mais núcleo, o que é mais ancestral, o que seria o pólo formador de algo que se classifica como humano. Ela vai corajosamente em direção ao extremo da linguagem. E se depara com visões que são simplesmente inexprimíveis.
É um desafio enorme enfrentar a força e a imensa coragem de Clarice. Ela se coloca de uma maneira absurdamente clara, profunda, lúcida, abrindo seus pensamentos e sentimentos mais íntimos à completa exposição, para olhos curiosos e perplexos diante da carne viva que ela nos apresenta, sem retoques. O desafio é transpor para a linguagem teatral toda essa intensidade, toda a sensibilidade e a perplexidade de Clarice perante o mistério do ser. Não uma interpretação literal ou fiel à palavra, tão cara a autora, mas encontrar - no formato da atuação, da fala e da ação - o mesmo efeito poético tão energético que a sua obra suscita durante a leitura. Utilizar as palavras escritas sim - tornadas palavras faladas - mas também beber das entrelinhas, do não-dito, dos silêncios, sempre presentes em qualquer texto de Clarice. Essa alquimia de metamorfosear o ouro da palavra escrita na pedra brilhante da comunicação viva, imediata e direta que o teatro proporciona.
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