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ETCETERA - Revista Eletrônica de Arte e Cultura, Junho/Julho 2004
http://www.revistaetcetera.com.br/16/oficioAtriz/index.html

Ofício: Atriz

Neste especial a Etcetera reuniu oito atrizes do teatro alternativo de São Paulo para discutir o ofício da atriz e seu papel na sociedade. Fernanda D'Umbra, Georgette Fadel, Isabel Teixeira, Mônica Raphael, Nádia De Lion, Renata Zhaneta, Silvana Abreu e Soraya Aguillera responderam a uma entrevista elaborada pela revista juntamente com convidados como o pesquisador Adriano de Assis, os dramaturgos e diretores Márcio Boaro, Mário Bortolotto e Reinaldo Maia.

Quem participou da entrevista:

Adriano de Assis
Mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo e Pesquisador de Teatro. Colaborador da revista Etcetera.

Márcio Boaro
Ator, diretor e dramaturgo da Cia. Ocamorana de Pesquisas Teatrais. Escreveu entre outras peças A Guerra da Libertação Divina.

Mário Bortolotto
Ator, diretor, escritor e dramaturgo. Fundador do grupo Cemitério de Automóveis. Escreveu Medusa de Rayban, Éramos Todos Thunderbird's, Hotel Lancaster, etc.. Também publicou livros como Bagana na Chuva, Gutenberg Blues, entre outros.

Reinaldo Maia
Dramaturgo e diretor do grupo Folias D'Arte. Entre suas peças destaca-se Verás Que Tudo é Mentira, Folias Felinianas, Flávio Império - uma Celebração da Vida, etc.. Também publicou livros como Brecht visto da rua. É um dos organizadores do movimento Arte Contra a Barbárie.

A elaboração e concepção do especial são da revista Etcetera que também participou da entrevista através de questões levantadas pela equipe editorial.

revista Etcetera: Embora seja uma das expressões artísticas das mais antigas as mulheres só vieram atuar no teatro no século XVIII. No Brasil até a metade do século XX a profissão era discriminada e associada ao meretrício. Gostaríamos de saber como é ser atriz hoje e o que ainda pode melhorar.

Fernanda D'Umbra: Ser atriz é tão difícil como sempre foi. Ninguém dá a mínima para as atrizes. Exceto para as que se sujeitam a escândalos e a exposição de sua vida privada, mas isso é putaria e não vem ao caso. Essa é a primeira vez que vejo uma entrevista só com atrizes para saber o que elas pensam. Fiquei surpresa com a iniciativa. Ser atriz hoje, ainda é ser confundida. Não com uma puta, mas com uma idiota. Fazer o quê? Eu deixei de me preocupar com o que pensam a respeito da profissão. Conheço atrizes legais e procuro me relacionar com elas. Mas acho que o que ainda pode e deveria melhorar são as próprias atrizes. Eu vivo implorando para minhas amigas: leiam mais, se informem sobre outras coisas, parem de achar que a única saída para a vida de vocês são essas merdas desses testes que vocês fazem o dia inteiro, parem de querer fazer a Zilu no filme-biografia do Zezé de Camargo e Luciano, não aceitem convites cretinos para peças cretinas, ao menos cobrem mais caro pelos micos imensos que vocês pagam.

Tem muita atriz bacana que se dá ao respeito, mas a maioria não. E aí fica difícil defender. Na verdade ando desistindo. Sigo fazendo o meu e de vez em quando faço esses discursos mamãe radical, que não adiantam nada pra falar a verdade. É fácil reclamar da sociedade como se não se fizesse parte dela. O mercado , o teatro, o mundo, essas coisas todas também são vocês, poxa. O que falta para melhorar é mais coragem e menos peruagem.

Georgette Fadel: Ser atriz hoje é muitas coisas. A palavra atriz hoje quer dizer muitas coisas diferentes. Para mim, a certeza do crescimento, o único crescimento que me interessa, em direção à consciência dos fenômenos que me formam e me cercam. E não acredito que atualmente seja mais difícil, mesmo em termos sociais e financeiros, ser atriz do que ator.

Isabel Teixeira: Se até a década de 50 a profissão era marginalizada, hoje em dia ser "atriz" virou aspiração nacional. Qualquer uma pode, quase da noite para o dia, "virar" atriz. Eu acho até bonito. Parece que a palavra "atriz", de tanto ser confundida com a palavra "puta", engravidou dela mesma e explodiu numa profusão de significados e desdobramentos. E, na minha opinião, tudo é válido. Existe a atriz de comercial; a de teatro e cinema; a atriz, modelo e manequim; a atriz de teatro infantil; contadoras de história, atriz e dona de casa, atriz de botequim, atriz estrela, atriz sem estrela. e por aí vai até o infinito.

Na minha opinião, a palavra "atriz" é camaleônica, vai se adequando ao uso pessoal e intransferível que fazemos dela. Quando optei por usar esta palavra como epíteto de mim, fui forjando uma malha de significados próprios, que se adequam ao tipo de teatro que eu quero fazer agora. Para mim o ofício não se limita ao papel decorado e repetido. Faço parte de uma Companhia (a Cia. Livre de Teatro) onde os atores são criadores em potencial. Atores que também são diretores, escritores, tradutores, iluminadores, cenógrafos. O ator com consciência plena da máquina teatral, que domina minimamente as partes que constituem o todo do espetáculo, é o tipo que me agrada e com o qual eu me reconheço mais. Na criação da personagem, o iluminador, por exemplo, tem seu papel fundamental. Eu, como atriz, sei de onde vem a luz, qual a intensidade, qual é o tipo do refletor, a angulação, como o facho de luz compõe o todo da cena, enfim. Há um diálogo direto com o iluminador, podemos criar conjuntamente porque eu tenho conhecimento do ofício dele e ele do meu. Acho que hoje em dia os atores têm que dominar a caixa do teatro em todos os seus desdobramentos.

Mônica Raphael: A questão histórica é relevante, mas hoje, os problemas que enfrentamos como atrizes são os mesmos enfrentados pelos atores. A principal dificuldade é levar o nosso trabalho a um público maior e conseguir com isso viver de forma digna.

Nádia de Lion: É ser operária, ser trabalhadora como todo mundo que luta pelo que acredita, sem as vantagens que por exemplo uma pessoa contratada por empresa tem como: registro, seguro-saúde, transporte, etc. Não existe a discriminação quanto ao meretrício, mas existe sempre um estranhamento em preencher uma ficha - profissão: atriz, a pergunta é: - Você já fez novela?

Renata Zhaneta: Pra melhorar tem tudo. O Brasil precisa entender que arte é um bem comum como saúde, educação, moradia, transporte. Sem sonho o homem não vive, vegeta. E sem arte como se consegue alimentar o sonho? Parto deste ponto de vista pra pensar minha relação com o ofício. Minha ambição é interferir para que o mundo se torne um pouco mais brilhante para todos.

Silvana Abreu: Ser atriz (ou ator) hoje é encarar a verdadeira e total insegurança da vida, escondida atrás de falsos confortos, de falsos sucessos, e conseguir fazer disso mesmo combustível para a expressão artística. É jogar dados com o impossível e revelar e propor novos trajetos, muito além da simples busca de sobrevivência. O que ainda pode melhorar sou eu, meus recursos, meu pensamento, minha ação no mundo.

Soraya Aguillera: Eu acho que o preconceito ainda existe numa parcela de público que não é o meu. As cobranças são muitas, inclusive da família que quer que você faça sucesso ou tenha uma vida financeira mais segura. Acho que ser atriz hoje é não ceder a pressões é esforçar-se por ser fiel a si mesma. Tudo pode melhorar. O intercâmbio entre nós ajuda muito.

revista Etcetera: Até que ponto é importante uma escola de arte dramática ou uma faculdade de artes cênicas para a formação da atriz?

Nádia de Lion: Até o ponto em que ajude no crescimento artístico e amadurecimento. Muitas pessoas começam em grupos de teatro amadores ou profissionais e aprendem de tudo ali, naturalmente já fazem uma transição, se formam na prática e é esta transição que se espera das escolas de teatro. Mas nem sempre isto acontece, não é? Por outro lado, estudar é um privilégio: o conteúdo, carga horária, e profissionais envolvidos nas Escolas Dramáticas e Faculdades de Artes Cênicas são maravilhosos, são marcantes na nossa vida.

Isabel Teixeira: O grande perigo de fazer uma faculdade de artes cênicas é achar que se está pronto. Um ator nunca está pronto. Se está pronto, está acabado. A formação de um ator é uma constante em eterna mutação (como a vida, como tudo). Cada um tem a sua escola. Para mim a Escola (fiz EAD) foi bem importante como começo. Até hoje eu não fui buscar meu diploma. Acho meio incoerente. A escola foi o marco zero. Todos os dias eu renovo a minha opção. E amanhã é outro dia. Novo.

Renata Zhaneta: Na medida em que a escola se preocupe com a formação técnica e filosófica do ator, que ela pense o teatro como arte coletiva e saiba se relacionar com o que os aprendizes encontrarão ao terminar o curso.

Georgette Fadel: Até o ponto em que uma escola pode ajudar a organizar o pensamento e a prática do aprendiz e pode promover encontros maravilhosos e essenciais. Mas uma escola também pode desorganizar, manipular e reduzir o pensamento e a prática de um aprendiz e pode promover encontros desastrosos. É preciso sempre estar atento.

Silvana Abreu: Eu fiz escola e, de alguma forma, isso foi importante. Tive encontros essenciais com pessoas muito especiais. Há milhares de formas de fazer teatro, de ser atriz, e cada forma implica numa formação diferente. Não há caminho único, há o teatro amador, o teatro de rua, o circo. Mais importante são os encontros com gente que te alimenta, que te faz se sentir crescendo, que te aponta caminhos, não importa se essas pessoas estão na escola ou não. Agora, é necessário estudar sempre, aprofundar conhecimentos, aprimorar técnicas. Eu acredito que o mais importante é encontrar a tua turma artística, o tipo de trabalho que mais te estimula e só depois procurar qual a formação que leva de encontro a isso.

Fernanda D'Umbra: Eu sou muito suspeita para falar sobre escolas porque sou uma eterna estudante. Gosto de aulas quando tenho um grande professor, gosto do ambiente escolar. Faço aulas de dança e sou uma aluna aplicada. Mas formação é um negócio que ou você faz a sua ou não adianta uma boa escola e suas fórmulas mágicas. Formação é interesse, é curiosidade e isso ou você tem ou você é só uma idiota que não lê, não se informa, não sabe nada de música, é uma chata que só tem um assunto e acredita piamente que a escola vai te salvar. Existem muitos professores picaretas, mas existem muitas atrizes picaretas também que sentam a bunda em uma cadeira e dizem: ensinem o que vocês acham que eu preciso saber. Ah, não agüento essa preguiça.

Soraya Aguillera: Eu comecei no teatro amador. Foram 5 anos de prática antes de fazer escola. Isso foi fundamental na minha formação. Percebi que a prática havia me ensinado técnicas que a sala de aula não poderia. O exercício da prática teatral é fundamental. A escola é um espaço direcionado a pesquisa, a experimentação e a troca.

Mônica Raphael: Fundamental. Nas condições precárias em que a educação deste país sempre esteve submetida, poucos tiveram sequer uma formação satisfatória. Se a educação e a formação de qualquer individuo é a base para o desenvolvimento de seu pensamento crítico, sua visão de mundo e, portanto, seu poder transformador, nós, que optamos por um ofício que propõem em si uma reflexão critica, temos por obrigação investir na nossa formação. Apesar de alguns cursos de formação não passarem de caça níqueis, há várias escolas que propõem um trabalho sério, diligente, fundamental por estar pautado também na visão crítica. Nosso trabalho de formação é um continuum, um "sempre", construído a cada trabalho, a cada espetáculo que nos desperta, a cada vez que olhamos para além de nossas janelas e não deixamos que a vida passe diante de nós sem que a gente veja e se importe.

Mário Bortolotto: Você acredita em atrizes camaleônicas?

Soraya Aguillera: Se pra você, atriz camaleônica é aquela que num mesmo dia grava um comercial de lingerie, por exemplo, depois corre para fazer "Chapeuzinho Vermelho" em uma escola da periferia, vai para um outro ensaio onde está substituindo, em apenas 2 dias, uma outra atriz, corre para uma empresa onde apresenta uma peça sobre acidente de trabalho e a noite faz a última apresentação de um espetáculo qualquer onde pediu substituição porque já está de olho em um outro trabalho, aí não, né? Aja fôlego e superficialidade. Agora, se você chama de camaleônica uma atriz inteligente, que compreende o processo e com sensibilidade sabe aproveitar suas qualidades e deficiências em benefício da personagem, transfigurando-se com consciência e verdade: sim, eu acredito.

Mônica Raphael: Eu acredito em um processo, na construção do personagem a partir da observação e reflexão, onde se busca o essencial, do que em grandes metamorfoses.

Silvana Abreu: Eu acredito em boas atrizes, que tiram poesia da pedra e me fazem acreditar que a vida mais ampla e livre é possível.

Nádia de Lion: Ah... não sei. Eu acredito que o trabalho da atriz e do ator é se transformar ao máximo para tornar o trabalho verossímil, e ter humanidade, sem isto não dá. Agora se isto é ser camaleônica, julgue você. Em geral eu não gosto muito de palavras que se tornam um rótulo.

Renata Zhaneta: Nem sei o que significa isso. Acredito em processo, investigação e construção do trabalho, seja qual for.

Georgette Fadel: Creio que uma das brincadeiras mais divertidas para uma atriz é o vestir máscaras, mas prefiro sempre acreditar em atrizes humanas que podem e sabem escolher em que, porque e como se transformar.

Isabel Teixeira: Eu acredito em atrizes. E nesta fauna, há várias espécies de camaleoas. Camaleoas que a cada ano aparecem de um jeito. Mudam tudo. Você olha e não reconhece. Camaleoas que aparentemente são sempre iguais e no entanto dão conta de uma galeria imensa de personagens totalmente díspares uns dos outros. Me veio agora na cabeça a imagem da Lilian Lemertz. Era sempre igual. Cabelo liso, na maioria das vezes bem puxado para trás. Lilian Lemertz era camaleônica na emoção, sempre renovada. Há também as camaleoas do tempo. O tempo muda a gente. Eu sou dessas. Sou adepta do cotidiano. Gosto de ver a vida passando na rua, no ônibus, na esquina, no quarto alugado na frente da minha janela, na moça, na mão, no fósforo acendendo o cigarro, na lata rolando escada abaixo. A mudança se dá pelo olho, é no olho. O olho como porta aberta. Aí a pele pode mudar.

Fernanda D'Umbra: Se elas me convencerem, sim. Mas penso que muita atriz paga mico por achar que pode fazer qualquer papel. Agora, não vamos negar que algumas atrizes são mais versáteis do que outras e podem se arriscar sem quebrar tanto a cara. Acho que existem sim umas minas com muitas possibilidades diferentes. Esse termo "camaleônicas" é que é um pouco pesado.

revista Etcetera: Existe mesmo uma "grande dama do teatro brasileiro"?

Renata Zhaneta: Existem atrizes que nos ensinam muito pela técnica, pela postura na profissão e na vida, pela generosidade da alma: Berta Zemal. Valderez de Barros, Denise Weimberg, Cleide Yáconis, Claudia Schapira, pra citar algumas feras por quem tenho eterna admiração.

Mônica Raphael: Seria uma grande redução achar que existe uma única dama. O que temos são atrizes e atores que nos inspiram pelo seu trabalho contínuo e dedicado, contribuindo para história do nosso teatro. São as grandes damas e os grandes cavalheiros do teatro brasileiro.

Nádia de Lion: Não uma, mas várias. Não só a grande dama, mas as grandes damas do teatro brasileiro, eu sempre tento conferir, vou atrás dos trabalhos delas e poucas vezes me decepcionei. Temos que levar em conta que a mídia pode ser exagerada às vezes em relação a algum trabalho. Ou que a minha eleita como "grande dama" não seja a mesma eleita pelo público ou pelos críticos, pela mídia.

Isabel Teixeira: Sim. Existem várias grandes damas. A perseverança e o tempo constroem a grande dama. A gente não nasce com esse título. Ele é conquistado a duras penas, depois de anos de trabalho. E, para mim, a grande dama é aquela que sabe pisar no tapete vermelho calçando um salto sete e um tempinho depois é vista com uma sacolinha correndo atrás do ônibus pra voltar pra casa. Com a mesma dignidade. E beleza.

Fernanda D'Umbra: Não. Soraya Aguillera: Fernanda Montenegro é a Grande Dama do Teatro Brasileiro, isso é um fato. Ela é a eleita da mídia, do público e da classe teatral. Inclusive por mim, que tenho o hábito de eleger várias damas do teatro, todos os dias. Hoje escolhi: Fernanda D'Umbra, Georgette Fadel, Isabel Teixeira, Mônica Raphael, Nádia de Lion, Renata Zhaneta, Silvana Abreu...

Georgette Fadel: Algo grande pressupõe algo pequeno. Não vejo assim. Vejo que existem atrizes generosas com as quais aprendemos sobre engajamento e beleza.

Silvana Abreu: Esse tipo de rótulo serve para facilitar a vida da imprensa ou para quem precisa de ícones para se sentir mais confortável e seguro. Tanto faz se há ou não. O teatro é essencialmente imaterial e efêmero, não há como fixar nada. Há grandes atrizes que fazem teatro há muito tempo, que a gente admira e que podem ser um farol no nevoeiro. Há a Denise Stoklos, que eu não chamaria de "grande dama", mas que é o maior vulcão em atividade no Brasil que eu conheço. E há tanto teatro que a gente não conhece. Com certeza, deve haver agora uma atriz poderosa no Nordeste que eu nunca vi.

Reinaldo Maia: Você foi convidada como atriz do teatro alternativo, vale perguntar: alternativo a quê e por quê?

Georgette Fadel: Alternativo a um tipo de pensamento que embrutece o ser humano e lhe arranca o que de mais precioso ele tem: o livre-arbítrio, a capacidade de refletir e elaborar o próprio destino. Alternativo a idéias de competição e comparação. Porque acredito na urgência da percepção da vida (e portanto do teatro) como um fenômeno essencialmente coletivo e amoroso.

Fernanda D'Umbra: Já usei muito esse termo e sei que ele traz em si a melhor das boas intenções, mas não sei mais se faço teatro alternativo. Faço teatro. Se ele é alternativo a alguma coisa acho que é ao medo de se arriscar, alternativo a falta de grana em casa, alternativo ao monte de desculpas que as pessoas arrumam pra ficar em casa reclamando, alternativo às pressões de sucesso e fama que engolem um monte de gente enquanto eu me divirto com meus amigos. Alternativo porque não há desculpa para não se fazer teatro. Não faço um teatro alternativo ao "teatrão". Faço o que eu quero, é só. Não quero definir o que faço por comparação.

Isabel Teixeira: Alternativo porque não tem outra alternativa. As coisas foram acontecendo. Para fazer o teatro que quero, eu tenho que ser "geratriz": gerar as condições necessárias para estar atuante. É alternativo por isso. Não está nos moldes mercadológicos. Tem que ser constantemente inventado e reinventado para poder existir. Para falar a verdade, eu nem sabia que eu era uma atriz do teatro alternativo. Não tenho nenhum suporte político que estruture minha maneira de ser dentro do teatro. O coração sempre vai antes. É o coração que pede. E a força de vontade realiza.

Nádia de Lion: Alternativo primeiro no que é dito e/ou como é dito. Alternativo na maneira de organização e produção do grupo. Alternativo porque é necessário, as pessoas se conhecem, querem trabalhar, estudam e vão atrás das possibilidades com características artísticas que fogem das leis do mercado, mas elas não querem desistir dos sonhos, e tornam o trabalho realidade mesmo nadando contra a maré.

Soraya Aguillera: Existem espetáculos de estética e conteúdo novelesco, geralmente com artistas globais, feitos para o divertimento da classe média. De outro lado o que muitos chamam de grupos alternativos, alguns pretensos alternativos que erram no princípio e acabam invariavelmente mergulhando no hermetismo. Consistentes em seus princípios, preocupados em dialogar com o público sobre temas relevantes da atualidade, alguns grupos conseguem proporcionar ao público o reconhecimento de si mesmo, a reflexão e o prazer estético.

Mônica Raphael: Alternativo porque não endossamos os modelos culturais vigentes e rentáveis com o nosso trabalho. Temos claro que a abrangência do nosso trabalho é restrita, mas é o que acreditamos.

Silvana Abreu: Pode ser também mais um rótulo para facilitar generalizações. Mas pode também indicar caminhos e escolhas que não se enquadram em modelos prontos, quaisquer modelos, tantos estéticos quanto de produção. Acho que o momento é importante para criamos meios realmente alternativos e desistirmos de nos fazer "incluídos". Acho mais saudável se assumir "excluído" e, na exclusão, criar maneiras novas e mais sinceras de reunir artistas em grupo, produzir e oferecer seu trabalho, divulgar, trazer gente, ser remunerado por isso e continuar trabalhando.

Renata Zhaneta: Alternativo a tudo o que possa nos aprisionar às regras de "mercado". Alternativo porque pretendemos buscar possibilidades estéticas ainda não exploradas. E que os Deuses nos ajudem! Agora, acho que vivemos um bom momento para discutir entre nós mesmos este conceito: alternativo! Vamos marcar uns papos no Praticável do Folias?

Adriano de Assis: O teatro é um meio de produção tecnicamente limitado se comparado, por exemplo, aos meios de comunicação de massa, em especial ao cinema e à televisão. Enquanto estes operaram com públicos genéricos e abstratos, que tendem ao infinito, o teatro apenas atinge públicos pequenos e restritos a uma representação numa única sala de espetáculos. Em virtude disso, não pode concorrer, num mercado cultural, em igualdade de condições com produções artísticas televisivas ou cinematográficas, estando condenado a especializar-se numa fatia de público (estudantes, minorias, elites...) e a sobreviver em condições econômicas precárias, contando com patrocinadores esporádicos apenas para a exibição de peças (raramente para estudo e preparação) e tendo de recorrer ao amparo estatal. Você acha possível a existência contínua e independente de companhias teatrais profissionais no capitalismo?

Isabel Teixeira: A produção contínua de companhias teatrais profissionais sobrevive apesar de perguntas como essa. A base do raciocínio é equivocada e é exatamente esta base que precisa ser modificada. Não podemos simplesmente equalizar o teatro com as demais produções culturais e tecer comparações absurdas que tendem a desqualificar e denegrir a produção teatral atual. Não há igualdade de condições entre o teatro, o cinema e a televisão porque são meios diferentes de produção cultural. São linguagens diferentes e cada uma tem o seu papel. Dizer que o teatro está condenado a especializar-se numa fatia de público é ditar uma sentença negativa por princípio e desqualificar esta "fatia" de pessoas. A qualidade teatral não está diretamente ligada com a quantidade de pessoas que tem acesso aos espetáculos. O mercado cultural oficial (aquele favorecido pelas leis de isenção fiscal) tende a abastecer somente uma pequena fatia da produção teatral - em geral a que vai vender mais a marca de um determinado produto. Apesar disso, os grupos de teatro estão aí, produzindo bom teatro. Cada companhia tem uma cara, um estilo. Hoje em dia vivemos a retomada do teatro de grupo. E o público lota as pequenas salas de espetáculo. A minoria vai se tornando uma pequena maioria conforme o tempo passa. O teatro atinge o público em ondas. Eu acho isso muito legal. Não faço teatro para as massas. Quando eu entro em cena quero falar para cada um que está ali. O que eu acho que tem que acontecer (e está acontecendo sim) é uma mobilização desses grupos atuantes para que se criem condições que abarquem nossas necessidades através de leis específicas e fundos de cultura. Não é o fim do mundo recorrer ao amparo estatal, muito pelo contrário. Só que o estado tem que dar conta do recado.

Georgette Fadel: Atualmente, como é o caso da Cia. São Jorge de Variedades da qual faço parte, companhias estáveis só conseguem sobreviver com dignidade por conta de programas e incentivos públicos. Não há e nunca haverá interesse real por parte de empresas privadas e da mídia nesse tipo de trabalho que pressupõe humanidade. O capitalismo está calcado em valores tão diferentes dos que nos movem nessa empreitada que vejo a conciliação como impossível. Eu mesma não quero me conciliar com nenhum tipo de mercado, não sou nem produto nem mercadoria. E tenho certeza que a arte que se constrói sobre valores tão obviamente redutores e perversos como os do capitalismo perde inevitavelmente algo de essencial.

Soraya Aguillera: Alguns grupos sobrevivem a duras penas, muitas vezes em detrimento a qualidade artística. O problema do Brasil é cultural. É preciso implantar uma política que possa contemplar a enorme diversidade cultural do país, e promover a inclusão dos que se vêem privados do acesso à cultura. Em São Paulo, algumas conquistas da classe teatral, como por exemplo, o Programa de Fomento ao Teatro, que em sua 4 ª edição, tem como objetivo apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral, visando o desenvolvimento do teatro e o melhor acesso da população ao mesmo, apesar de merecer ainda muitos ajustes, o projeto prova que a classe teatral vem reconquistando sua dignidade.

Nádia de Lion: Acho possível, mas não sei quanto tempo é este contínuo e independente. Quando você se dedica a um trabalho artístico que te abastece, mas as contas não são pagas é muito frustrante, além de impraticável. As pessoas acabam tendo outras atividades para se manterem, lógico. E a estabilidade e aprofundamento do grupo podem dançar, porque acaba havendo uma rotatividade grande de pessoas e às vezes pessoas que são alicerce do trabalho.

Fernanda D'Umbra: Elas sempre existiram. Por que achar que não é possível? Uma existência independente precisa de um grande poder de resistência. Física, inclusive. É lógico que o teatro nunca terá o público da televisão ou do cinema, mas um bistrô também não tem o público do Mc Donald´s e nem por isso deixa de existir no capitalismo. O dinheiro precisa deixar de ser o único parâmetro na vida das pessoas senão estaremos todos rendidos. O que eu acho é que as atrizes e todo mundo que faz teatro tem que parar de comparar o teatro à TV e encarar que abriu um bistrô, fazer uma boa comida e ir até a mesa conversar com os clientes. Enfim: fazer um teatro bacana, cobrar um preço justo, conversar com a platéia da forma mais informal possível, formar seu público noite após noite e se preparar para uma vida artesanal. E aí, vai encarar?

Silvana Abreu: O teatro não tem necessidade de ser tecnicamente rico, não tem necessidade de concorrer ou se igualar com a TV ou com o cinema, não está condenado a nada. O teatro tem vida própria e os próprios meios de produção. Tem sido assim há séculos. A quantidade de pessoas atingidas não é um ponto de fragilidade. A fragilidade está no embotamento que o capitalismo necessita impor à sensibilidade. Isso abafa e adormece a nossa a necessidade natural de teatro. Cabe aos artistas serem fortes e contundentes o suficiente para quebrar essa casca de insensibilidade e mobilizar a vida novamente nos corpos na platéia. Na realidade, há várias companhias teatrais funcionando há muitos anos, que não estão fazendo o jogo do mercado, não estão na mídia, e fazem teatro de ótima qualidade. É claro que elas passam por dificuldades, mas também estão resistindo e criando seus meios de produção próprios, apesar de todos os muros sendo levantados em todas as direções.

Renata Zhaneta: Bom, no Folias a gente tem tentado manter a investigação artística continuada. Não é biscoito não! Mata-se um leão por hora, mas essa é nossa escolha: persistir, resistir e não desistir. E quem disse que o capitalismo é eterno?!

Mônica Raphael: Acho possível, porque existem estas Companhias, apesar da famosa frase, um clichê: "O teatro está morrendo". Para um moribundo, eu diria que ele resiste corajosamente, apesar dos maus presságios. O teatro é a manifestação artística que acontece em um momento único; o encontro do ator com o público, isto vai persistir enquanto o homem manter sua humanidade e precisar deste encontro. Para continuarmos o nosso trabalho, a união da classe artística é fundamental para garantirmos a dignidade a que temos direito. Um belo exemplo desta união , é a Lei de fomento ao teatro para a cidade de São Paulo. Outras possibilidades estão surgindo, já que estamos aprendendo neste processo coletivo a consolidarmos os nossos direitos de forma mais eficiente e com resultados mais promissores.

revista Etcetera: Vivemos em um país onde existe o monopólio de uma emissora de televisão. E a televisão tem sido a mídia com maior alcance e popularidade. Tendo isso em vista as novelas da rede Globo são para a grande maioria da população a única referência que se tem do trabalho de atriz. A mídia tem contribuído muito para uma visão deturpada do ofício, associando invariavelmente a questões como fama, beleza, virtuosismo, glamour,etc.. Isso de alguma forma atrapalha o seu trabalho? Queríamos saber se hoje é possível desenvolver um trabalho sério e ético dentro da televisão e se você aceitaria um eventual convite para fazer parte de um elenco de telenovela da Globo.

Silvana Abreu: A mídia não atrapalha o teatro, de maneira alguma, são coisas bastante distintas. O teatro funciona no encontro de pessoas ao vivo. O público acaba sabendo onde tem bom teatro, de uma forma ou de outra. É um trabalho quase que subterrâneo. Aquele que quer ver a celebridade tem essa possibilidade. Mas isso não interfere no trabalho de quem faz teatro, porque atua numa freqüência completamente outra. E o público acaba sendo bem diverso. Acredito que é possível fazer um trabalho sério e ético na TV. Temos a TV Cultura e a STV, por exemplo. Mas também acho séria e ética a ação de desligar a TV e enfrentar o mundo sem interface. Eu não tenho interesse em participar de trabalho com TV. O tipo de visibilidade que isso traz não me anima nem um pouco.

Fernanda D'Umbra: Estou me lichando para os padrões de beleza e não sinto falta de dar autógrafos na padaria. Portanto fama e glamour não me fazem gastar um neurônio. Minhas preocupações são outras. Sou vaidosa, detesto engordar, mas também seria assim se fosse veterinária. E não me incomoda que a TV seja a maior referência para o trabalho de atriz, nem ligo. Digo na recepção do hotel que sou atriz, a moça levanta os olhos para ver se me reconhece e volta a preencher minha ficha sem me dar bola. Sinto muito, mas não estou nem aí se não vou ser assunto na sua casa na hora do jantar. Se bem que o teatro que eu faço deveria ser assunto na sua casa. O que eu faço e o que um monte de gente faz.

Sobre a segunda pergunta: é claro que é possível desenvolver um trabalho sério e ético em qualquer lugar do planeta, mas as pessoas decidem não fazer isso na maioria das vezes. Vamos combinar o seguinte: chega dessa babaquice de botar a culpa pela mediocridade da cultura na TV. Todo mundo combinou que ia ser medíocre de uns tempos para cá e está todo mundo se esforçando para isso: os jornais, as rádios, as revistas, a TV e pasmem, o teatro, que é também um menino muito esforçado. Mas é o primo pobre então todo mundo vai lá e passa a mão na cabeça dele. Eu não salvo o teatro, não salvo a literatura, nem a música, nem a imprensa, nem a TV. Porcaria não escolhe lugar para se encostar. Se os outros setores da cultura vivem desse glamour cafona porque o teatro não se contaminaria disso também? Quem manda na cultura hoje é o dinheiro dos anunciantes. E a mídia (que somos nós também, não se esqueçam disso) vai obedecer como uma boa e brega menina.

Eu já vi peça de teatro começar com anúncio de restaurantes apoiadores. Os atores que você ia ver dali a cinco minutos na peça, que por sinal era legal pra caramba, tinham que dizer que comiam aqui ou ali. Que vergonha! Vejo atrizes "de teatro" dizendo "é show", "é tudo", "tá podendo" porque não abrem uma merda de um livro há anos. Então o que sobra? O indivíduo. A autocrítica. A responsabilidade por sua própria formação cultural. A coragem de dizer que não vai comer o canapezinho. Não é tão difícil assim. As pessoas é que chegaram a um grau elevadíssimo de acomodação.

E agora vamos à pergunta que adoram fazer para atrizes "alternativas": Você aceitaria um "eventual" (adorei o eventual) convite para fazer parte de um elenco de telenovela da Globo?

Muito respeitosamente colocaram a palavra eventual para deixar claro que nós atrizes "alternativas" não temos nada a ver com isso e que isso é portanto uma espécie de possibilidade remota. Nem tanto. Conheço atores e atrizes bem radicais que fizeram o famoso "registro" para a Rede Globo de Televisão. E tenho comigo uma entrevista que dei aos seis anos de idade onde digo que quero ser atriz para que minha mãe me veja na televisão. Ainda quero. Acho o veículo mais legal que alguém já inventou. Sempre me fascinou o poder incomensurável de comunicação da TV. Mas e as telenovelas da Globo? Por que elas não são tão legais como eram quando eu tinha seis anos? Por que agora eu sou adulta e sei e li e vi coisas que me fizeram mudar de idéia? Não sei. Talvez não seja só isso. Mas o fato é que eu não fiz o "registro" nas duas vezes em que me chamaram porque eu acho muita função e não tenho saco para isso. Acho que só dá para saber se faria ou não se me convidassem. Mas eu nem tenho registro lá. E eu ia querer saber o que eu iria fazer e essas coisas todas. Não é mais tão fácil. Talvez porque eu não tenha mais seis anos.

Soraya Aguillera: Esporadicamente a televisão apresenta trabalhos sérios e éticos sim. Eu não me sinto muito à vontade para falar sobre televisão, porque nunca fiz, é uma outra linguagem, outro público, porque haveria de me incomodar? Eu nunca me interessei verdadeiramente pela televisão, o teatro é o único veículo que realmente me mobiliza. Se um dia eu me interessar pela televisão, poderei responder esta pergunta com mais propriedade.

Georgette Fadel: Existem muitas pessoas éticas, muitos artistas interessantes e interessados numa ação ética dentro da televisão, ou da tv Globo, sem dúvida. Mas a função nefasta que hoje a maior parte das emissoras cumpre de transformar em objeto passivo o espectador, entupindo-o de superficialidades irrelevantes e transformando-o num animal repetidor de bobagens, essa função é tão bem exercida que nos parece impossível reverter esse quadro. Atualmente seria incapaz de aceitar um convite para fazer parte de um elenco de telenovela na Globo. Talvez aceitasse um convite para escrever uma novela, se eu tivesse liberdade total para fazer e falar o que eu quisesse.

Nádia de Lion: Não, acho que não atrapalha. Eu até aproveito alguns exemplos para mostrar alguns valores, como no Teatro Vocacional que foca bem a criação e manutenção do teatro de grupo. Eu não sei nada de televisão como atriz, nunca fiz nada. Devem existir pessoas sérias e éticas em TV, sim. Eu acho que deve ser muito difícil recusar um trabalho na Globo. Só mesmo se eles oferecerem condições muito precárias, aí as pessoas recusam mesmo.

Isabel Teixeira: Como já disse, teatro e televisão são linguagens diferentes. O fato de muitas vezes eu não ser reconhecida como atriz porque não faço televisão nunca me atrapalhou em nada. E se me convidassem para fazer uma novela eu faria sim. Tenho muita vontade de explorar todos os campos que a minha profissão me permite. Eu acho muito chato esse puritanismo que dita que uma atriz de teatro se vende quando faz televisão. Deve ser bem legal. Outro ritmo, outra luz, outra dinâmica.

Mônica Raphael: Sim, atrapalha bastante a forma como a mídia perverte, além de impor um modelo de beleza e atuação na maioria das vezes lamentável. È possível um trabalho sério e ético dentro da televisão, mas é pouco provável. Temos algumas exceções que confirmam esta regra. Se fosse um trabalho que não contrariasse meus princípios, eu faria sem problemas.

Renata Zhaneta: A televisão é um veículo muito bom. A forma como está sendo utilizado é que tem sido nociva à construção de uma cultura verdadeiramente brasileira. Penso que ao invés de consumirmos enlatados de péssima qualidade como o que existe agora, poderíamos realizar programas de alto nível. Vocês já imaginaram se no lugar da novela das oito assistíssemos adaptações de "Rasga Coração", "Rasto Atrás", "Bella Ciao", ou até "Cantos Peregrinos"? O ator não se divide em ator de teatro, de cinema ou televisão. É ator! As escolhas são feitas conforme suas necessidades e visão de mundo.

Mário Bortolotto: O que é que você espera em sua carreira? Conseguir se tornar atriz de mercado capaz de fazer qualquer trabalho (geralmente é assim que se ganha dinheiro na profissão) ou se tornar atriz personalíssima com estilo próprio e identificada com um tipo específico de trabalho?

Mônica Raphael: Espero poder fazer cada vez mais trabalhos dignos.

Isabel Teixeira: Eu não costumo fazer o que vai aparecendo, não. Eu me apaixono pelas coisas que eu faço. E sempre fui eclética nas paixões. Tenho um pouco de medo de me tornar essa atriz específica que só faz um determinado tipo de coisa. Para mim seria um tédio. Gosto da idéia de liberdade. Não me venham prender numa só rotina que eu morro. O nome Cia. Livre de Teatro me agrada muito. Deixa o horizonte aberto para novas possibilidades.

Renata Zhaneta: Sempre pensei em construir uma carreira que me desse prazer artístico. O restante é consequência e está sujeito à conjuntura. O prazer da investigação, da descoberta, do aprimoramento técnico e, principalmente, o prazer do encontro comigo mesma na tentativa de me transformar como ser humano a cada trabalho. Este é o verdadeiro sentido de tudo. Teatro pra mim é vício! Vixe!

Silvana Abreu: Espero conseguir ser o máximo possível sincera com minhas inquietações e com a poesia que pode me atravessar. Essas inquietações determinam os caminhos a serem seguidos, e não o mercado ou as possibilidades de trabalho. Também não penso em buscar estilo ou identificação, pelo contrário, estar viva o suficiente para renovar verdadeiramente a cada trabalho, ter a coragem de abandonar o seguro e testado e enfrentar terrenos desconhecidos. Não desejo ser uma personalidade reconhecida ou uma artista excêntrica, mas quero sim poder ampliar meus recursos pessoais e singulares para poder dar o máximo da minha potência em cada trabalho.

Soraya Aguillera: Eu sempre me identifico com todos os trabalhos que escolho. Estou (inteira) na companhia de teatro Os Satyros. Acho fundamental para o ator o trabalho em grupo. A constância, a valorização do processo, a pesquisa, a experimentação, o trilhar juntos num mesmo sentido, ajudam a vencer limites e encontrar novos caminhos.

Fernanda D'Umbra: Quero dinheiro e mais nada. Dinheiro fazendo o que gosto para não ter que fazer o que não gosto. Como faço basicamente o que quero seria leviano se dissesse que quero mudar o mundo ou a sociedade ou um espectador que seja. Acho que ser uma pessoa que só faz o que quer é minha parte nessa revolução. Fujo como o diabo da cruz do mercado e fujo também de um tipo específico de trabalho. Se eu acho que eu posso e quero fazer alguma coisa , eu faço. Pouco me importa o que pensem. Engana-se a atriz que não acredita que pode deixar um legado só porque o teatro é efêmero. As pessoas que me viram em cena vão se lembrar de mim como uma atriz que só fez o que quis e não ficou chorando.

Nádia de Lion: Trabalhar mais, textos que li e nem imaginava que poderia fazer, acho que gostaria de arriscar mais, com pessoas bacanas, já viu quanta gente boa temos?, que tenha sempre um desafio naquele trabalho, por exemplo, viajar mais com um mesmo espetáculo. Conhecer novos diretores. Penso em ganhar dinheiro para ter uma vida digna, fiz 40 anos agora. E usando frases da Sarah Kane te digo : "Eu não quero ficar velha e fria e não ter dinheiro nem para tingir o cabelo. Quando eu tiver 60 anos não quero acabar num quartinho com medo de acender a luz e não poder pagar a conta".

Quanto ao estilo próprio, acho que cada um tem o seu e busca melhorar, mas não sei se é bom ser identificada por um mesmo tipo de trabalho a vida toda. Não sei. Gosto de mudanças.

Georgette Fadel: Espero que minha carreira seja expressão cristalina da minha caminhada como ser humano, cidadã. Expressão das minhas fraquezas, das minhas perguntas, das minhas vitórias e superações. Nem mais, nem menos.

Márcio Boaro: Uma atriz que opta por trabalho coletivo de pesquisa e compromisso social, tem um olhar diferenciado sobre o seu oficio. Mas como artista tem outras inquietações e necessidades a serem respondidas. Como conciliar estas necessidades diferentes?

Mônica Raphael: Necessidades contraditórias geram conflitos e nos obriga a reflexão mais aprofundada de quem estamos nos tornando, em que acreditamos, o que queremos e o que podemos realizar no momento.

Silvana Abreu: Ou a gente se joga completamente na direção das nossas inquietações e necessidades e isso nos leva naturalmente a um tipo de trabalho específico, ou a gente se engana e acaba aceitando caminhos em que não estamos inteiros e plenos, talvez por não acreditar que seja possível. Há que se ter um compromisso total.

Fernanda D'Umbra: Não são diferentes para mim. Não sou das mais ligadas em trabalho coletivo de pesquisa porque minha pesquisa independe do coletivo. Eu até desconfio um pouco desse mito do trabalho de grupo. E olha que trabalho em um, mas não me alimento só dele senão enlouqueceria ou me acomodaria deixando meu pensamento ser conduzido pelos meus "companheiros de trabalho". Tenho medo dessas coisas que te deixam confortavelmente protegida por um coletivo, um diretor, um guru, um método. No Cemitério de Automóveis o Mário Bortolotto é o diretor e autor, funções de liderança, é claro, mas daqui de onde estou, ou seja de dentro da minha cabeça, eu me garanto para não permitir que ela deixe de ser o meu juiz.

Se minhas inquietações (que já disse, não têm nada a ver com fama e glamour) tiverem que ser abortadas, eu saio do grupo na boa. Não tenho causa alguma que não seja a minha liberdade. E acho que dá para ser livre trabalhando com quem você gosta. Se um trabalho te afasta de suas inquietações se afaste dele. Esse negócio de "encontrei minha turma" é perigoso. Daqui a pouco a mina está botando a culpa de não fazer o que quer em seu compromisso artístico/social e aí vira uma atriz chata e frustrada cheia de desculpas politizadas. Ninguém leva duas vidas. Se você não está plena em um lugar, está ocupando o lugar de alguém. Vai andar, no melhor sentido da expressão.

Renata Zhaneta: Bom,conciliar significa trabalhar três períodos por dia para conseguir sobreviver e continuar estudando, ensaiando, tocando o grupo, fazendo projetos, dando aulas... Nada muito diferente do que a grande maioria dos brasileiros faz . Mas "vamo que vamo" porque muita coisa tem avançado e eu gosto é de me estimular com as vitórias. Hoje desenvolvo um trabalho junto à Cia Estável de Teatro que ocupa o teatro Flávio Império na Zona Leste que me mostrou, na prática, a imensa beleza e a força que tem a arte na transformação social. Então, acho que hoje é fazer, fazer, fazer ... e teorizar menos!

Isabel Teixeira: O coletivo e o individual são instâncias que se complementam e interagem continuamente. Conciliar diferentes necessidades não requer esforço nenhum. Na minha opinião, isso se dá naturalmente.

Georgette Fadel: Não são diferentes dentro de mim.

Soraya Aguillera: Não sei, talvez estabelecendo prioridades. Eu acho que o processo de amadurecimento artístico é feito de erros, todos essenciais, vitórias e fôlego muito fôlego.

Nádia de Lion: Correndo atrás... correndo atrás de outros artistas com quem se identifique, ou grupos que tenham inquietações e necessidades parecidas. Sendo produtora ao mesmo tempo em que atriz.

Márcio Boaro: Como dosar necessidades diferentes para se sentir inteira em um novo trabalho?

Renata Zhaneta: A cada novo trabalho o mais gostoso é me jogar sem rede de proteção. Aí sim eu me sinto inteira. Beber até a última gota do primeiro ensaio ao último dia da temporada.

Soraya Aguillera: Estar, ou melhor, ser inteira , concentrada e plena é uma das tarefas mais difíceis e fundamentais do meu ofício. Eu acho o princípio essencial. A identificação com o processo, o bom relacionamento do grupo e a concentração adequada, também são fundamentais. A maturidade tem me ensinado a não levar para o trabalho o que não pode fortalecê-lo.

Isabel Teixeira: A dosagem certa não existe. O desequilíbrio faz parte do jogo, assim como uma busca constante. É esse caminho da busca que faz com que eu me sinta inteira. Assim, o trabalho será sempre novo.

Mônica Raphael: Estabelecendo prioridades, e se percebendo diante delas. O que posso e o que eu não posso fazer no momento, porque as inquietações e necessidades são inerentes ao ser humano e estarão sempre presentes.

Georgette Fadel: Talvez exercitando a permeabilidade, a capacidade de jogar, dialogar e reagir a cada nova situação.

Fernanda D'Umbra: Não tem essa de dosar. Decidiu fazer alguma coisa vá com tudo e se divirta. Mais ou menos não é nada.

Silvana Abreu: A sinceridade comigo mesma é essencial. Vejo o trabalho coletivo como encontro de artistas ativos, criadores, firmes e inteiros em suas necessidades e questionamentos, não um encontro de amigos para pensar na possibilidade de um trabalho qualquer. Isso é também uma postura política, no sentido habitar por completo o espaço expressivo que lhe cabe e criar relações profundas e fortes com os companheiros. É um eterno desafio. Para isso, não pode haver falsa humildade, sentimentos frágeis de piedade que fazem abrir mão do que é vital no teu espaço para ceder lugar ao outro. É mais que isso, é fazer valer por completo o seu espaço e o espaço do outro, em relações fortificadas, com alto poder inflamável, criando um espaço novo, maior e inédito.

Nádia de Lion: Acho que de acordo com que as experiências, os trabalhos vão acontecendo, dá pra ir se equilibrando e fazendo novas escolhas, ou se não temos novas opções buscar novos sentidos ao trabalho. A vida é assim, de acordo com os desejos, angústias, alegrias e medos que sentimos é que buscamos isto ou aquilo, justamente para estar inteira num novo trabalho.

Reinaldo Maia: O que faz com que você continue fazendo teatro?

Silvana Abreu: Não faço a mínima idéia. Tenho me questionado muito sobre vocação. Coisa que hoje em dia é abandonada logo de cara, na porta do colégio. Mas acredito que, em se afirmando nossos desejos com clareza e com firmeza, no fim das contas não resta muita opção, o caminho é aquele mesmo. E cada um tem um caminho próprio muito específico, dentro do qual se sente inteiro, realizado, satisfeito, dando o seu melhor. Mesmo que morra de fome por isso.

Nádia de Lion: Amor, eu gosto do que faço.

Georgette Fadel: É minha chance de me divertir. É minha forma de sentir, pensar, organizar minha sensibilidade, observar, compreender. Seria impensável parar.

Soraya Aguillera: Eu me pergunto isso todos os dias. Não sei, acho que eu acredito no seu poder transformador, mesmo que essa transformação só aconteça em mim. A reflexão que transcende, a busca no ser presente, descobrir o esquecido, o efêmero, o brincar de iludir, a comunhão e o prazer: Sempre o prazer.

Renata Zhaneta: Eu já disse antes: teatro é vício. Comecei aos 14 anos e não me reconheço fazendo outra coisa. Sou feliz quando estou mergulhada no processo de criação seja em que estágio for. Portanto, como a gente vem ao mundo pra ser feliz... Claro, já pensei em jogar tudo pro alto e ir morar numa praia nos momentos de crise mais "brabos", mas quem disse que eu consigo trocar a caixa preta pelo sol? Cada um com sua loucura!!!!!!!!!!!!

Mônica Raphael: Eu só entendo a minha existência realizando um trabalho artístico, o teatro.

Fernanda D'Umbra: Entrar em cena. Acho a arte da interpretação a mais legal de todas. Os problemas todos me chateiam, mas não o suficiente. O que importa é olhar da coxia o lugar para onde eu tenho que ir e entrar lá para mentir descaradamente.

Isabel Teixeira: Um trecho de um poema do Dylan Thomas, " Em meu ofício ou arte taciturna" , e um poema inteiro do Brecht, "Conselho à atriz C.N.".