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Micro-Revolução de um ser Gritante

DOURADOS NEWS, 01/11/2004
http://www.douradosnews.com.br/cultura/view.htm?ma_id=123462

"Somos feitos pra iluminar o mundo"
Silvana Abreu, em cena revolucionária
Osni Tadeu Dias

A atriz, diretora e produtora Silvana Abreu, segunda colocada no I Festival Latino Americano de Monólogos, promovido pelo Espaço de Convivência Artistica Entreartes, fala com exclusividade sobre teatro, política e possibilidades de revolução a partir do grito. Silvana atua desde 95 e já participou de várias montagens teatrais e também de cinema. Seu espetáculo-solo, "Micro-Revolução de um Ser Gritante", baseado na obra de Clarice Lispector foi premiado como melhor espetáculo e melhor intérprete no 6º Festival Nacional de Monólogos de Vitória. Foi com muita paixão que uma das mais brilhantes discípulas de Denise Stoklos nos recebeu na tarde chuvosa de sábado em Dourados.

Silvana, como o teatro entrou em sua vida?

É uma história longa... Na verdade eu sou formada em Ciências da Computação e comecei a fazer aulas de teatro como um hobby, como uma coisa sem compromisso e fui fazendo, fazendo, fazendo. E como uma coisa puxa a outra, fui fazer um curso profissionalizante e me formei. Do curso, saiu uma peça e comecei a produzir. A peça viajou, levei para o Festival de Curitiba, para São Paulo, ela teve uma boa repercussão e as coisas foram acontecendo naturalmente. O teatro foi cada vez mais tomando mais espaço e pedindo mais espaço e fui seguindo com um pouco de medo e resistência. Acho que até hoje eu me pego pensando: "Oh! Eu sou atriz!" É uma coisa ainda estranha.

O artista hoje vê a televisão como uma grande vitrine. Como você encara o início de uma carreira atualmente?

Na verdade a maioria das pessoas que entra em uma escola de atores não quer ser ator verdadeiramente. Querem ser celebridades, famosos. Antigamente ser artista era uma coisa mal vista, coisa de vagabundo, prostituta. Acho que a vida de artista é isso - sobreviver na corda bamba. É se soltar no abismo, sem rede. A vontade de desistir, de parar, o desestímulo, a falta de interesse, isso é um leão por dia, mesmo.

Como foi seu contato com a Denise Stoklos?

O contato com a Denise foi assim: eu sempre admirei muito o trabalho dela desde a primeira vez que a vi, no final dos anos 80 e fiquei admiradíssima com a potência que era o trabalho dela em cena. Eu disse: nossa, isso é teatro! E aí descobri essa alquimia, essa potência que parece pegar fogo entre a platéia e o artista. Eu falei: "se isso é possível, eu também quero fazer". Descobri que teatro era aquilo, que ela chama de fricção.

Denise vai ao âmago, naquilo que ela chama de teatro essencial...

Exatamente. Ela vai pro acontecimento da coisa, que é o encontro, esse choque entre as nossas vontades, a vontade do ator.

Nós constantemente vivemos situações limite, como você coloca em seu espetáculo, a impossibilidade...

Eu acho que a questão é o limite que existe entre a sobrevivência e o impossível, o abismo. É você viver no abismo, que é morrer de fome. Se precisar a gente morre de fome, sim, mas não larga disso, desse desejo. A sobrevivência é uma coisa que o capitalismo ensina - você precisa produzir pra sobreviver.

O sociólogo irlandês John Halloway coloca como única saída possível no mundo contemporâneo novas buscas além do Estado e de todo o poder. Para ele, o homem hoje é um ser passivo, um homem máquina desprovido de subjetividade. Isso não vai ao encontro do seu trabalho?

São dois momentos. Eu já estava trabalhando com o texto da Clarice (Lispector), querendo adaptá-lo e acabei tendo o privilégio de participar do projeto Solos do Brasil e, dentro do projeto, tudo mudou na minha cabeça. Posso dizer que minha vida é antes e depois desse projeto. O encontro com a Denise, com os outros professores, com o Luis Fuganti, que é um filósofo maravilhoso, cujas discussões foram muito especiais e produtivas, baseadas na idéias de Espinosa, Nietzsche e Deleuze, totalmente afirmativas da vida, do desejo, da liberdade. O que a Denise faz em cena ele faz no campo das idéias. Então discutíamos muito o funcionamento do jogo de poder, como ele se introjeta em nós e a gente mesmo já é uma entidade à serviço do poder. Ele fala muito do Foucault e das sociedades disciplinares que existiam, o exército, a escola, a igreja. Agora não, vivemos uma sociedade do controle. O controle já está introjetado e somos agentes do poder.

A idéia de disciplina nas escolas vem da França, do período da Guerra...

Exatamente, essa coisa militar. Agora a gente já tem o controle, se culpa, se julga, não é preciso ninguém para nos controlar. Agora a polícia não é tão repressiva, não precisamos mais de ditadura e repressão porque nós próprios nos tornamos agentes da nossa própria repressão.

Os golpistas já não precisam mais de tanques...

Não precisam, eles já estão introjetados em nós. A gente já é o próprio soldado. Reprimimos a nós mesmos. A gente discutiu muito isso. Essa coisa da anarquia e da liberdade... Não há poder! Então não é mais uma questão de ditadores e coitadinhos. A gente demanda isso o tempo todo e exercitar a ausência disso é muito complicado porque a gente tem que se fazer forte. A gente tem que assumir todas as nossas potências e jogar com o forte do outro nas relações. Não jogos de hierarquia, de cima pra baixo, são relações horizontais de potências, mas potências que se assumem completamente, que não abrem espaços pra falar assim: agora sou coitadinho, eu deixo meu espaço pra você, e na verdade você, no seu jogo de poder, toma minha energia vital e usa contra mim mesmo.

Então isso é subjacente às emoções...

Um exemplo, assim meio radical, é como um trabalhador da indústria bélica. Ele acha que está ali, fazendo o serviço dele. É somente um trabalhador, fazendo seu trabalho. Mas ele não é neutro! Ele está usando a energia vital para matar gente. Mas como o capitalismo e o sistema de poder colocou na cabeça dele que aquilo é uma coisa absolutamente normal, é honrosa, com carteira de trabalho assinada. Eu acho que trabalhar no banco é a mesma coisa. É alimentar um sistema que me corrompe, que me rouba a vida.

O livro "Mudar o mundo sem tomar o poder", começa com a seguinte frase: "no princípio era o grito. Nós gritamos". Até que ponto seu trabalho, que também fala sobre o grito, pode exercer uma ação mobilizadora na sociedade?

Ah, não sei. A tentativa é tentar mostrar que a gente não pode abrir mão do grito. E que é bom gritar, que é bom se impor, e que é bom ter raiva, porque a primeira coisa que o sistema faz é tirar nossa raiva. "Você tem que se controlar, não se descontrole, por favor, não se controlar é uma coisa muito feia". Mas a gente tem que se descontrolar, sim! Tem que se emocionar, sim! A gente tem que colocar o nosso desejo, a nossa raiva e a nossa indignação. É isso que eu aprendi com a Denise. A indignação é força vital pra não pisarem no nosso calo. A gente está deixando pisarem no nosso calo e ainda dizemos: muito obrigado. Não!! É pelo grito, pelo desejo. O desejo é uma coisa instintiva, energética. Não que seja violenta, é agressiva. E a agressividade é boa.

É necessária...

É necessária, faz parte do nosso corpo. Se a gente não trabalha com ela, vira violência.

A gente tem que ir além do grito de gol...

O grito de gol é o abafamento desse grito de desejo. E tudo colabora para que isso não aconteça. A Igreja colabora para que isso não aconteça, os sistemas educacionais, que abafa todo esse grito. E você fica com esse grito lá dentro, disfarçado... O que eu faço, no espetáculo, é tentar abrir essa couraça e falar assim: tem um grito aí dentro. "Nós que guardamos o grito em segredo inviolável". Isso é Clarice Lispector, não sou eu que estou falando. Ela já sabia disso.

Seu trabalho então leva seu grito para que cada um de nós solte seu próprio grito?

A Denise fala que o teatro é muito legal porque você pode surtar no palco para que não precise surtar lá fora. Então, é um convite, o ator surta no palco e se expõe pra convidar o expectador dizendo que ele pode, que dá pra se desarmar e não é mal, você não vai perder o controle, não vai ficar louco. É um convite, vamos! O expectador vê e fala assim: eu também posso, vamos juntos.

O espetáculo me fez pensar no Grito do Ipiranga, no grito de liberdade de Dom Pedro. Ele com aquela espada em punho, tudo muito fálico... Será que esse grito está entalado até hoje?

Esse é o grito do poder em nossas orelhas, com a liberdade cortando no meio. Mas hoje temos gente falando sobre isso. As idéias de Deleuze, já tem muita gente falando essa língua. A gente vive hoje na era da arrogância, essa coisa do desnível, do jogo de poder, que está se exacerbando cada vez mais. O Bush representa hoje a ditadura da arrogância. E aí as torres caem e caímos juntos lá pra baixo. Aí a gente vê a fragilidade que somos todos nós.

Teu trabalho condensa essas idéias...

A Denise fala de uma coisa que eu acredito muito, que o teatro, quando ele funciona ele é terapêutico. E eu acredito nisso.

De certa forma ele é catártico...

É catártico, é terapêutico, porque saímos mais renovados, mais fortes para encarar essa luta do dia-a-dia. Acho que o teatro é isso. É o que eu aprendi com a Denise. Quando você sai do espetáculo dela você vê que somos fortes. Tudo isso é pra relembrar que somos fortes. Tem uma frase do Nelson Mandela que traduz isso, ele diz que você não tem medo da sua fraqueza, você tem medo da sua força. Porque fomos feitos pra brilhar e não pra ficar apagadinhos. Nós somos feitos pra iluminar o mundo. Você não pode ter medo do seu brilho...

Mais informações sobre o trabalho de Silvana Abreu nos endereços:

http://www.silvanaabreu.com
http://www.denisestoklos.com.br/solosdobrasil/release_silvana.htm