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"Solos do Brasil" mostra a força da dramaturgia sem palavras No palco, mais um projeto brota como matéria de reflexão na área da dramaturgia: Solos do Brasil, até 2 de março, na Sala Jardel Filho, do Centro Cultural São Paulo. São 15 composições individuais, com duração aproximada entre 20 e 30 minutos, divididas em quatro programas diferentes, de atores selecionados pela performer Denise Stoklos. Analisar a dramaturgia do rojeto é tarefa exequível, mas nada fácil. Trata-se de perseguir a construção de um pensamento que dê conta de analisar as várias dramaturgias existentes nesse tipo de teatro, a do corpo, da luz, do espaço e da palavra. Solos é a parte visível de um processo de aproximadamente um ano de duração, em que os atores enveredaram pelas sendas do Teatro Essencial, denominação ao tipo de arte desenvolvida por Stoklos há 35 anos. Sob o patrocíno auspicioso da Petroquisa, elaboraram suas partituras para o palco, abarcando o tema Brasil. Stoklos costuma encarnar um furacão em cena, destilando energia na forma e no conteúdo. Seu Teatro Essencial pode ser entendido, grosso modo, como o máximo de teatralidade com um mínimo de efeitos. No Manifesto do Teatro Essencial, de 1987, assinado por ela e citado no programa de Solos do Brasil, ressalta: "Quero trocar a fantasia da composição teatral pela presença viva do ator (...) engajado na história com suas idiossincrasias, sem recursos do fabricado, limpidamente como água da fonte." Em entrevista ao Estado, em 2001, complementa a idéia "(No Teatro Essencial), o ator só existe se o público entra no palco e através do ator constrói, propõe, mostra. Trata-se de um teatro que vai alem do enredo, que convida a uma fricção de presenças entre ator e público, em atração gravitacional ativa, como gravetos a produzir fogo." Nessa combustão, todos os elementos se tornam essenciais na comunicação com e para o outro. Ainda que sem grandes aparatos tecnológicos, a luz ganha como que ação própria ora dialogando, ora contestando, orra corroborando as idéias do ator em cena. E é no vazio do palco que o corpo e a voz do ator esculpem movimentos significativos, recepcionando os contra-movimentos que evocam a sensação de um espaço com vida própria. Isso se torna fundamental para a detecção das dramaturgias da cena: para além da plástica, há uma forte preocupação com a dinâmica da ação. O espaço é o representante mais eloqüente dessa dramaturgia plural: nele são esculpidas as idéias do ator, construindo e localizando, em questão de segundos, casa, mar, espaço sideral, campo de batalha, prisão, etc. Cumpre diferenciar esse tipo de construção da mímica ou pantomima, ainda que essas técnicas acabem por se fundir no Teatro Essencial - assim como o circo e o clown. O elemento ou ambiente não é construído com as mãos e o corpo do intérprete, mas com essa dinâmica solitária do ator que, dialetizada por movimentos e contra-movimentos, escolhe e elabora os signos, construindo as idéias. O testemunho de uma das coordenadoras e atrizes do projeto, Silvana Abreu, corrobora na teoria: "Assumir cada mínimo átomo de nosso corpo. Assumir cada mínimo gesto. Assinar. Tomar a palavra. Estar inteiramente só na atitude de expressar-se." Com essas poucas explicações, talvez seja possível compreender melhor o reino criativo dos 15 discípulos de Stoklos, escolhidos entre cerca de 3 mil candidatos, de vários Estados brasileiros. O que está em jogo é - mais do que o ator que detém e transmite um conhecimento - o ator que tenta recuperar a si e ao outro a experiência do ato de existir - e esta seria a primeira função desalienante, de cunho político, do Teatro Essencial. E Denise Stoklos é o melhor exemplo prático bem-sucedido de seu próprio eixo teórico. Mas a despeito da importância desse teatro que tenta combater o pensamento delivery desses nossos tempos, é natural que, do ponto de vista do espectador, cobrem-se resultados artísticos. E eles são muito variáveis nas respostas qualitativas: alguns performers carecem de domínio básico do corpo e da voz; outros, repetem um discurso verbal que por vezes soa falso, de caráter panfletário típico dos anos de chumbo, exortando à revolução pessoal/social/política. Vários solistas cantam trechos de hinos brasileiros e citam personagens revolucionários da História do Brasil. Impossível não mencionar esse revestimento que soa propagandístico, datado e até um pouco primário. O caminho da liberdade se faz também pela negação do modelo, da matriz. Visivelmente mais experientes com o corpo e a voz, Silvana Abreu, de São Paulo (Micro-Revolução de um Ser Gritante), Fábio Vidal, de Salvador (Erê - Eterno Retorno) e Tiche Vianna, de Campinas (Instrangeira) tiram partido da dramaturgia construída no espaço, permitindo que, aparentemente, a partir dele, e não após, nasça o discurso verbal. Silvana - dona de um dos solos menos panfletários e na raiz libertários - se debate entre prisões e gaiolas criadas com o corpo evocando trechos de A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Divindade cosmogônica até "cair" na Terra, Vidal relaciona-se com os planetas do sistema solar. Tiche, como sobrevivente feminina de uma hecatombe "discute" com um inimigo oculto acima de seus olhos. Os três têm, ainda, a seu favor, carisma e domínio de palco e dosam palavra e teatralidade com assinatura pessoal. Jefferson Monteiro (Oferenda aos Santos Excluídos), de São Paulo, é um jovem performer que promete criar uma bela trajetória daqui para frente. Ele constrói milimetricamente com o corpo signos que jorram tanto quanto as palavras. Sobre patins imaginários ou caminhando numa rua, escrevendo uma carta ou dançando um rap, explora as veias que conduzem à autonomia de ação e do pensamento. O texto, no entanto, carrega por vezes nos clichês que parecem não "colar" na boca do jovem: "(ironicamente) Prometo não revolucionar, prometo deixar ir por água abaixo histórias de grandes mestre da humanidade (...) Penso em Paulo Freire, Milton Santos, Betinho, Zumbi dos Palmares, José do Patrocínio" e por aí vai. Lutar contra aquilo que não oferece resistência soa estranho, como que datado. Vivemos de um problema crônico e gravíssimo de falta de ética e de cultura, mas não há nenhuma repressão (além da econômica) que nos proíba de conhecer, estudar, de nos expressarmos. Mas isso não tira o brilho do jovem performer. Dona de um dos mais expressivos e originais solos da mostra, Taynã Azevedo (Agorijá), de Belém do Pará, não está preocupada em revestir sua composição de um discurso panfletário, intelectualizado. Não comenta a miséria, não apresenta estatísticas que constatam a exclusão social nem canta trechos do Hino Nacional. A atriz parte da idéia do ser individual para chegar ao ser coletivo, partindo de uma mulher que aspira ser uma grande diva do teatro e desvestindo-se até encontrar o arquétipo do ser simplesmente, em uma dança primitiva em contato com a natureza, batizada Agorijá. Taynã é comediante e tem tudo para continuar construindo um caminho próprio. Silvio Paulino dos Santos, de Carapicuíba, transforma seu solo Exclusão no grito irônico de um excluído em cena. Não faz discurso real, não informa; está imerso nas questões do imaginário. E o faz com tanto vigor - beirando uma atuação esquizofrênica, sortida, inesperada - que qualquer clichê se dissolve na força de sua ação. À Simone Faro (Ecos), de São Paulo, cabe um dos finais mais bonitos do conjunto de solos, em que, ao depositar, como um recém-nascido, um pedaço de tronco envolto em manto vermelho, dá várias voltas no palco correndo (como se fugisse de algo? alguém? buscando a saída de uma floresta devastada?), abandonando em seguida a cena. Claudia D´Orey (Acorda), do Rio, é carismática e dona de uma bela voz. Miguel Rocha (Eu Quero Ver o Sol Nascer não do Jeito Que Vejo), de São Paulo, fala da violência, mas sua energia se destina mesmo a executar uma bela dança africana ritualística. Embora Roberto Sales (Moro Solo), de Salvador, "construa" sua casa no palco todo, com certa graça e domínio do corpo, o solo não parece deixar claro a que vem. O mesmo acontece com Carta de um Pirata, de Vinícius Piedade (São Paulo) e Fragmentos de uma Dedicatória, de Jorge Baía (Caruaru, PE), que desequilibram o valor do corpo e do espaço em função do discurso verbal - sempre exortando à revolução, à não aceitação dos valores impostos, etc. Danilo Souto Pinho (Fortaleza, CE) em Sui Generis Brasil, e Jô Rodrigues (São Paulo), em É Possível...É possível, Sim, partem de textos fragmentados que interessam sob uma perspectiva criativa. Mas falta-lhes, ainda, experiência para esse tipo de trabalho. O mesmo ocorre com Araponga Valdívia, de Jacqueline Valdívia (Biguaçu, SC), que, embora inicie de um ponto firme, buscando sua essência cultural nos idos quinhentistas, não permite que a imaginação vá mais longe, presa que parece estar em dar importância ao ato de conseguir escolher. Solos do Brasil é um programa com altos e baixos, mas é um bom convite para se refletir sobre a dramaturgia como uma arte que existe muito além das meras palavras. Serviço Solos do Brasil. De terça a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 12,00.
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