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Arte e saúde: teatro é terapêutico???

A partir da minha experiência atuando nos palcos e dando aulas, por tudo que já aprendi e vivi com o teatro, não tenho dúvidas de que vivenciar a arte envolve necessariamente um caráter terapêutico.

Certamente, a melhoria da saúde não é o objetivo principal e a intenção consciente de quem faz ou de quem usufrui a arte, nem deveria ser, caso contrário entraríamos num campo muito pessoal e restrito, e estaríamos lidando com a psicologia ou a medicina.

Mas se é ARTE de verdade, viva e pulsante, então ela terá sim, como consequência, um efeito curativo para quem faz e para quem testemunha o trabalho do artista. Há uma elaboração da vida e suas vissitudes em uma dimensão simbólica, coletiva, poética, que permite descolar-se por certo instante da dor para olhá-la de outros ângulos. Podemos desdobrá-la em máscaras e personas, estabelecer uma distância lúdica e torná-la "ficção". Desta forma transvestida e reinventada, podemos jogá-la na arena do intercâmbio público, onde todos a reconhecem, colaboram e participam dando suas "opiniões" (mesmo aparentemente passivos e calados). Assim, a dor é ressignificada, a energia e força que ela consumia sofre uma transmutação e é liberada poética e criativamente. Todos os envolvidos se sentem mais fortes e mais alegres.

Considero que o farol de um bom processo artístico é a alegria e o fortalecimento que ele gera, mesmo tratando das dores mais trágicas. É o quanto ele libera de energia para dançarmos com a vida com alegria, amor e liberdade. E isso, eu creio muito, é saúde.

Silvana Abreu
novembro/2009
atualizado em fevereiro/2010

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente."
Fernando Pessoa