Silvana
Abreu

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Temor

Eu temo. Eu tenho medo. Muito. A todo instante. A cada passo. Medo de perder tudo. Medo de encarar de frente a verdade de que não tenho nada. De levar a bofetada da insuficiência generalizada. De assumir a falta. De saber das incertezas multiplicadas por mil. O terror paralisante de ter que escolher sem pedir licença. De alternar altos e baixos sem aviso prévio. Eu temo a alegria do gesto mais leve. Eu temo a liberdade do suave e do manso. Temo todas as dúvidas a que me permito. Agüento tremores generalizados só para não experimentar vertigens genuínas. Encaro o trote que meus nervos me pregam quando se contraem. Me restrinjo. Ignoro os piscantes sinais de alerta. Me imobilizo como barata se fingindo de morta. Morta que sou. Cadáver definhado de uma luz que não vem. Circunstância patética e lamentável. Tudo diluído ralo abaixo. Só o breve obituário do jornal me revela en passant. Já passou. Já passei. Nem se nota. Nem se nota o medo. O tiro no escuro. O golpe em defesa. A defesa sem golpe. O último minuto que passa. Fim da rota. Espasmo. Que nunca se afronte o infinito. Nada, a não ser vírgulas. Sem exclamações. O eterno fim de semana esperando o dia de trabalho. O dia que não existe. O medo que não existe e por isso tão presente. Breve movimento involuntário que denuncia. Denúncia pública. Assembléia geral para informar a todos. A condenação inevitável. Adeus às armas. Confesso todos os crimes que me alimentam o terror. Confesso inverdades terríveis. Confesso o medo grande. Minha covardia bélica. Meu conforto cínico. Tudo bem comprovado. Tudo muito sério. Satisfação garantida. Sutis oscilações subterrâneas anunciam o perigo maior. O perigo fatal. Que venha.

Silvana Abreu
novembro/2002