O meu país é o solo sobre o qual eu atuo

Solo, território, chão, base.
É a partir do solo que podemos pisar firme e dar o próximo passo. E o próximo. E mais um.
É a partir do solo que podemos criar caminhos, trajetos, cruzar fronteiras e horizontes.
A partir desse chão podemos semear alimento sempre renovado. Em se plantando tudo dá. E dá com generosidade. Bastam mãos que saibam cultivar e espalhar os frutos.
Nas entranhas deste solo podemos descobrir o mineral, a rocha, a matéria sólida que espera nosso poder de extrai-la e na alquimia da nossa ciência/consciência fazê-la transmutar-se em riqueza para maravilha de todos.
Mas o solo também nos põe sozinhos.
De frente para si mesmo. Assumir cada mínimo átomo de nosso corpo. Assumir cada mínimo gesto. Assinar. Tomar a palavra. Estar inteiramente só na atitude de expressar-se. Somente assim estamos unidos. Quando eu sou completamente eu, aí então eu posso chegar plenamente ao outro e criar a comunicação.
O Teatro Essencial de Denise Stoklos é solo porque é base. É solo porque é inteiro, é pleno. É solo porque é universal. Ele é farol no nevoeiro cada vez mais espesso. É absurdamente urgente e necessário. É o ungüento curativo.
O privilégio de estarmos vivendo sobre o mesmo solo, no mesmo país, na mesma língua, na mesma época em que vive Denise Stoklos é um maravilhamento. E a responsabilidade se impõe na mesma proporção. A responsabilidade de responder ao chamado. Assumir o compromisso de fazer parte da tão complexa cidadania brasileira e dar o nosso depoimento com clareza e com coragem. Estejamos atentos. Estejamos inteiros. É essencial.
Silvana Abreu
Projeto Solos do Brasil / 2002