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Micro-Revoluções

A revolução é permanente. A revolução é microscópica. A revolução é sempre. A escolha pela revolução ou pela estagnação é a escolha pelo "sim" ou pelo "não" a cada segundo, a cada gesto. A ação já está viva antes mesmo da ação, e através do "sim" ela se torna plena e brilhante. É transformação sempre.

Aonde, então, começa o aprendizado da insuficiência?
Em que ponto da trajetória se aprende a desistência? Aonde começa a resignação?
Quando é que se recebe o "não" como lei de segurança e de paz?
E morre-se feliz a cada segundo?

Chega um tempo em que o lugar devidamente reservado para enquadrar a vida já não comporta a força do afeto que se encerra em nosso peito. Quando a poeira debaixo do tapete pulsa com intensidade e rasga seu tecido já tão roto. Quando o entulho desaguado nas periferias distantes já não estão tão distantes e maculam a assepsia, o "bom gosto", a coerência e a tranqüilidade da consciência limpa.

Os muros sobem com orgulho, se equipam, se modernizam. Separam maravilhosamente. Os muros corroem-se e caem tão mais rapidamente. Só poeira.

Clarice Lispector sussurra suas formas indizíveis e aponta uma trajetória instaurada no instante-já. O abandono da esperança como forma de encarar a vida plenamente no agora. A eterna espera por salvação cede lugar à eterna perdição de viver. O encontro com a vida que pulsa a cada instante numa revolução silenciosa. A revolução essencial.

Silvana Abreu
novembro/2002