Silvana
Abreu

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Secretária eletrônica...
Caixa-postal
Recado
Tum tum tum....
Bip
Deixe seu recado.

Mão. Não. Negativo
Uma mão...... Negativo
Um olhar, uma respiração, um ar.
Negativo.
Necas.

Coletivo: "monte humano apressado". Hush
Dá pra ver os olhos?
Negativo.
Dá pra ver o olhar?
Dá pra ver o rosto? A mão?
Onde, a mão?
O dedo - na tecla
O dedo - na tecla
O dedo - na tecla
Só mais um minutinho...
A mão? Negativo! Necas.
Sem chance
Aguarde, por favor.
Seu contato é muito importante.
Um anjo....
f
oto: Christian Heinlik

 

À beira do muro

As horasTempo
E o tempo bate
E a incrível tensão
O terror e a prece e a ....
O que se pode dizer está longe.
Não estão aqui as palavras
Que deveriam ser dizer a si mesmas
Foram-se há milhões de dias.
Todos eles, os dias, também se foram
Também a banda passou
Também
Coragem fica ecoando em ruído
O que se faz com a porta?
O que se faz com a beirada, com o pulo?
O que significa o contato?
Setecentos milhões de vidas correndo
E a estátua não se move.
A partir de Michaux

Estocados em reservatórios de massa, as megalópoles.
Alimentados com detritos. Estão acostumados. Deve bastar-lhes.
Dali entregam obedientes sua seiva às engrenagens, sem pestanejar.
Depois sucumbem de depressão e doenças cardiovasculares.
O seguro saúde garante o entorpecimento.
O seguro de vida garante contra qualquer invasão da vida.
E os sistemas digitais registrarão com eficiência o óbito.

Revolução

A revolução é permanente. A revolução é microscópica. A revolução é sempre.
A escolha pela revolução ou pela estagnação
é a escolha pelo "sim" ou pelo "não" a cada segundo, a cada gesto.
A ação já está viva antes mesmo da ação, e através do "sim" ela se torna plena e brilhante.
É transformação sempre.
Aonde, então, começa o aprendizado da insuficiência?
Em que ponto da trajetória se aprende a desistência? Aonde começa a resignação?
Quando é que se recebe o "não" como lei de segurança e de paz?
E morre-se feliz a cada segundo?
Chega um tempo em que o lugar devidamente reservado para enquadrar a vida já não comporta a força do afeto que se encerra em nosso peito. Quando a poeira debaixo do tapete pulsa com intensidade e rasga seu tecido já tão roto. Quando o entulho desaguado nas periferias distantes já não estão tão distantes e maculam a assepsia, o "bom gosto", a coerência e a tranqüilidade da consciência limpa.
Os muros sobem com orgulho, se equipam, se modernizam. Separam maravilhosamente.
Os muros corroem-se e caem tão mais rapidamente. Só poeira.
Clarice Lispector sussurra suas formas indizíveis e aponta uma trajetória instaurada no instante-já. O abandono da esperança como forma de encarar a vida plenamente no agora. A eterna espera por salvação cede lugar à eterna perdição de viver.

E se?

E se, num acesso de insanidade, de falta de bom senso,
A gente assumisse que somente atos amorosos serão aceitos?
Se a gente decretasse que apenas desejos intensos pudessem ser expressos em público?
Se a gente espalhasse as mais absurdas afirmações de paixão e de amor, em alto e bom som?
Sem se importar com nada mais?
Será que viria a polícia e nos prenderia por desacato?
Ou enfermeiros nos atariam aplicando calmantes e tranqüilizantes?
Ou seríamos levados a julgamento por perversão e obscenidade?
Se tirarmos o pé do freio e jogarmos o veículo da nossa vida
no abismo delirante da luz mais intensa e sedutora?
Seria a morte? Seria o fim?
Se a gente organizasse uma passeata com todos os malucos
que ainda acreditam na alegria de entregar corpo e alma ao nada, sem garantia nenhuma?
E saíssemos gritando frases sem sentido como: só o amor constrói?
Será que seríamos vaiados, chutados, ameaçados a pauladas?
Será que ofenderíamos as senhoras mais sensíveis?
Ou faríamos, de repente, um outro mundo possível?
Ou faríamos, num só instante, um mundo impossível aqui mesmo?

Poesia inútil

Luta inútil para segurar no ar algo que não existe,
que não ajuda,
que tapa a visão,
que tapa todos os sentidos numa ilusória linha colorida e sedutora.
Assumir de vez a raiva para derrubar logo
a teia embaçada que nos turva qualquer contato legítimo.
Soltar o grito primal vital urgente da poesia grossa em estado puro.
Revolver a revolta lúcida e sagaz.
Implodir a linguagem que nos bota cabresto manso.
Reverter qualquer lógica banal.
Poesia, por deus,
poesia urgente,
a mais incongruente,
a mais borbulhante de faíscas no olhar.

Veneno

Terminantemente proibido se escancarar na vida.
Cerca de arame. Corte e sangue.
O que se infiltra nas frestas do muro corrói em milímetros por século.
Embora a morte seja para já.
A companheira de calcanhar.
Aquilo que Aquiles sabe e não confessa.
O veneno é para todos os dias.
Em luxuriante taça.
O tintilar do brinde se ouve a cada segundo.
A embriaguez é inevitável.
Chuva ácida queimando a pele grossa.
Borbulhando.
Desfazendo qualquer traço de certeza.
Estúpida será qualquer reação da vassalagem.
Os porões foram invadidos.
Cães, violência, exílio, tempestade
Entre tantos entretantos, tudo é no meio.
Durma-se com um barulho desses.

:: Silvana Abreu